Meu encontro com os Crees

DSCN6303Aproximei-me dele atraído pela sua fama de caçador, de quem já enfrentou um urso raivoso, tentando derrubar a porta da cabana de qualquer maneira e acabou sedo morto com um único tiro certeiro, ou de quem passa dois ou três dias no mato atrás do rastro de um alce (moose) ou de um urso (bear), ou dar um tiro no ar para acertar um ganso (goose), animais que habitam a reserva dos índios Cree no norte da província de Quebeque. Ele parou o trabalho que estava fazendo, de cortar peças de um sistema de refrigeração a fim de separar o cobre do alumínio e revender para reciclagem, para me dar atenção. Pouco falava e menos ainda interagia com quem quer que seja, todavia era notória a conexão que aquele Cree possuía consigo mesmo. Longe dos meios de comunicação, fazia de cada momento como se fosse único.

Haviam esperado pela minha chagada para realizarem a “Cerimônia da Caminhada”, DSCN6415um dos momentos mais expressivos que testemunhei naqueles dias, seja pela riqueza dos significados, pela beleza, fruto da simplicidade, pela preservação da tradição e pela emoção em ver os primeiros passos da linda menina Cree que toca a terra com seus pés. É a sua primeira caminhada, fora de casa, fazendo contato com o solo sagrado, vivenciando o ambiente em torno dela, reconhecendo a natureza e o que ela pode fornecer para sua sobrevivência. Para o menino Cree seria a iniciação para o futuro caçador.

É claro que estou falando de um dos povos nativos do Canadá, a Nação Cree, que se localiza desde o leste (Quebeque) até o oeste (British Columbia) do Canadá, circundando a imensa Hudson Bay, a segunda maior baía do mundo. Das 11 aldeias (community) que estão na reserva indígena, tive a felicidade de conhecer Waskaganish, que conta com uma população de cerca 2500 pessoas, que tem água tratada, energia elétrica, escolas, desde a alfabetização em três línguas (Cree, Inglês e Francês) até o segundo grau, internet, restaurantes e todos os serviços públicos que se pode encontrar em qualquer outra cidade do Canadá. As casas foram completamente reconstruídas e novas estão surgindo a cada ano, um sinal de que o processo de retorno daqueles jovens Cree que foram para outras cidades, em busca de empregos, estão retornando para seu povo, para sua cultura, para sua família, para um ritmo tranquilo, com melhor qualidade de vida.
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Fiquei hospedado na casa da família de Billy Diamond, já falecido, mas que foi o Grande Chefe durante 10 anos e conseguiu importantes acordos com o governo em benefício de seu povo. Assim como a caça, a pesca também não é comercializada, mantendo os objetivos de subsistência e de integração. Para isso, agora em agosto, época da pesca do Cisco, o povo se prepara para comerem juntos o fruto da pescaria.

 

Depois de percorrer de carro 2.550 Km, de vivenciar algumas aventuras nessa viagem que durou menos de uma semana, de ter recebido como presente um lindo mocassim,

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feito pelas mãos de meus anfitriões, desde a caça do animal, o tratamento do couro, a defumação, o corte e os enfeites (meses foram gastos para a produção desse calçado), minha sensação é que a cultura indígena, em qualquer uma das milhares de aldeias espalhadas nas Américas, desde o Canadá ao Brasil, tem muito a ensinar a essa sociedade tecnológica que está perdendo velozmente a noção do tempo, o valor da relação desinteressada, a concentração em cada momento, que acorda e dorme exausta e que não sabe dialogar, pois está perdendo a capacidade de ouvir.

 

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A Força do Livro

 

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Foto: Google

É fantástico se deparar com as possibilidades de comunicação que a internet e os aparelhos eletrônicos estão proporcionando, principalmente para quem veio antes desse “boom” acontecer. Estou me referindo àqueles que, como eu, nasceram na década de 1960. Os que nasceram três décadas depois não têm ideia do que era viver sem, por exemplo, um celular.

 

Os conteúdos de um celular moderno são tão variados que é difícil não elegê-lo como o nosso maior companheiro no dia a dia. Estudos têm mostrado que hoje se escreve mais, se lê mais e se informa mais do que antes dos celulares. Embora com extraordinária superficialidade.

Essa grande mudança provocou uma apreensão sobre o papel do livro diante de tão atraente ferramenta. Na sequência, sinalizaram o fim do livro impresso e das livrarias. Os ambientalistas aproveitaram para levantar a bandeira das árvores. Sem o papel usado para a fabricação dos livros, as árvores seriam preservadas. Basta pensar um pouco para entender o quanto estamos rodeados de papéis inúteis que vão para o lixo e que poderiam ser evitados. O que não é o caso dos livros. Não vou me ater às livrarias, pois essas se modernizaram e hoje atraem até as crianças, coisa que antes não acontecia.

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Biblioteca do Parlamento. Ottawa, Canada.     Foto:Haroldo Dórea

O livro é insubstituível ou está fadado a desaparecer?

Estou convencido de que o livro possui uma característica fundamental. Não estou me referindo a ser uma fonte de informação ou ao seu formato, impresso ou como ebook, ou à melhora na nossa capacidade de escrever ou na expressão de nossas ideias.

O livro é transformador. Esse é o ponto.

Começa pelo leitor, é claro, através de um diálogo silencioso com o autor. Esse diálogo leva à reflexão, a relativizar os conceitos, a rever posições, a descobrir a beleza que está por trás dos inúmeros aspectos que a vida proporciona.

Como tem o começo, o meio e o fim de um raciocínio desenvolvido pelo autor, o livro nos torna mais racionais, aumentando a capacidade de análise e discernimento. Fazemos um exercício à perseverança, ao estar consigo mesmo, à escuta, sem nos darmos conta disso.

Esses benefícios que o livro proporciona leva, naturalmente, à melhora na relação com as pessoas que, como consequência, repercute na sociedade. Portanto, o livro parece ser passivo, silencioso ou monótono, mas a força que ele encerra é transformadora.

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Foto: Google

Prêmio Nobel em Química 2016

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Os três ganhadores do Prêmio Nobel em Química desse ano entraram para a galeria dos notáveis ao lado de Rutherford, Marie Curie, Linus Pauling e outros, perfazendo um total de 175 laureados desde o início da premiação (1901). Uma curiosidade é que apenas 4 mulheres químicas receberam esse prêmio até hoje.

Para Alfred Nobel, a química exerce um papel relevante entre as ciências e o anúncio de sua nomeação é um dos mais esperados. Esse ano o prêmio foi dividido entre três pesquisadores (Jean-Pierre Sauvage, Sir J. Fraser Stoddart and Bernard L. Feringa) “for the design and synthesis of molecular machines”. Apesar dos três dividirem o prêmio, cada um tem seu laboratório em universidades diferentes (França, EUA e Holanda, respectivamente) e isso não é um fato inédito, pois isso já ocorreu 22 vezes.

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Mais uma curiosidade. Marie Curie, naturalizada francesa, ganhou o Nobel duas vezes, uma em física (1903) e outra em química (1911). E sua filha, Irène Joliot-Curie também ganhou o Nobel em 1935, junto com seu marido.

 

Para saber mais, entre nos links sugeridos.

Prêmio Nobel 2016

Prêmio Nobel por países

O Encanto da Fórmula 1

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Fotos: Haroldo Dórea

Montreal é umas das quatro cidades das Américas que sediam as corridas de Fórmula 1, além de São Paulo, Austin e Cidade do México. Quem vai ao centro da cidade esses dias que antecedem à corrida do domingo, dia 12, respira o ar do evento, sobretudo nas charmosas ruas Crescent e Peel. Os carros esportivos e os luxuosos são expostos como quadros raros e desejados, para a admiração de todos. Os pilotos são alvos dos olhares curiosos de seus fãs, desejosos por um autógrafo ou por uma foto histórica.

O circuito Gilles Villeneuve está sobre a Ilha Notre Dame, que não existia. Isso mesmo! A ilha foi construída com os 15 milhões de toneladas de material retirado na construção do sistema de metrô de Montreal, em 1965. Dois anos depois foi palco para a famosa feira Expo’67, lembrada mais pelo grande desvio de dinheiro que houve do que mesmo pela reunião de negócios do mundo inteiro. Na mesma ilha está o agradável Parque Jean Drapeau e o Casino de Montreal. Ou seja, a Ilha de Notre Dame reúne diversão, jogo, vício, festivais, arte e os negócios que existem por trás da Fórmula 1. Os grandes negócios!

Uma curiosidade. O brasileiro Nelson Piquet, em 1984, foi o primeiro a ganhar o “Grand Slams”, ou seja, ganhou tudo o que tinha direito, a pole position, a volta mais rápida, liderou todas as voltas e ganhou a corrida. Airton Senna tem uma legião de fãs e um grande banner está sempre presente na entrada do circuito, homenageando o grande piloto. Outro brasileiro, Rubinho Barrichello, detém o recorde da volta mais rápida na história do circuito, obtida em 2004. Ou seja, o Brasil tem deixado suas marcas nesse evento que iniciou suas atividades em 1978.

Oficial Fórmula 1

Ilha de Notre-Dame

Celular. Perdido e Bem Achado.

“Perdeu seu celular?”

Diante daquela pergunta de minha filha, bati a mão no bolso e nada. Fiquei paralisado e senti o sangue escorrer de meu rosto.

O telefone celular se tornou uma ferramenta indispensável!! Com ele, estamos em contato com as pessoas mais distantes (algumas vezes, distantes das pessoas próximas), relaxamos a mente nos divertindo com seus jogos, ficamos antenados com as últimas notícias, a previsão do tempo ou comprando coisas, lendo livros… enfim, uma infinidade de possibilidades.

Em seguida, ela me tranquilizou, dizendo que uma pessoa havia atendido e disse ter achado o aparelho na rua Queen Mary. Inicialmente pensei ter perdido na própria Cabane de Sucre, onde estava com minha família para passar o dia. Contudo, aquele local onde o aparelho foi achado estava distante mais de 30 km. Fazendo uma retrospectiva, imaginei que o celular tivesse caído quando tirei o casaco naquelas imediações.

Marcado um horário para o encontro com a pessoa contactada, algumas horas depois, me preparei para uma recompensa em dinheiro. Chegando lá, identifiquei um que poderia ser, encostado na parede da loja Jean Coutu. Apostei ser ele e fui na sua direção. Entretanto, um homem, com cara de indiano, aproximou-se e disse meu nome com dificuldade (estou acostumado a não saberem pronunciar meu nome claramente). Respondi afirmativamente. Ele me entregou o celular e disse ter achado na rua. Agradeci, sem jeito. Simpático, respondeu um “de nada” trivial e foi embora.

Pela forma e profundidade dos arranhões no aparelho, acredito que um carro ainda passou por cima. No entanto, tudo funcionava normalmente, inclusive a câmara fotográfica.

E não foi só essa!

Minha esposa, quase um ano atrás, esqueceu no banheiro da escola Vanier um celular novo, desses “último modelo”. Quando se deu conta do esquecimento, algumas horas depois, voltou e lá estava. Não no mesmo lugar, porque quem achou preferiu colocar em uma posição mais segura, para que ficasse protegido da água das pias ou caísse no chão.

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Foto: Haroldo Dórea